O homem se envenena através de suas próprias invenções." — Claude Bernard, o pai da fisiologia moderna.

Quando pensamos na Diabetes Tipo 2 e na resistência à insulina, a primeira imagem que nos vem à cabeça é sempre a mesma: uma taça de sorvete, refrigerantes carregados de açúcar ou carboidratos refinados. Embora o açúcar tenha o seu peso (e falaremos de sua neurotoxicidade em outra ocasião), a ciência moderna tem decifrado uma causa celular muito mais profunda e invisível.

Uma causa que não afeta apenas a glicose no sangue, mas que destrói a própria arquitetura estrutural de cada célula do seu corpo: a substituição das gorduras biológicas estáveis por um dilúvio químico de óleos de sementes (soja, milho, canola, girassol).

A chave para desvendar este mistério encontra-se em um mecanismo biológico descoberto nos anos 1950, mas que a medicina clínica insiste em ignorar em suas prescrições dietéticas diárias: O Ciclo de Lands [1, 2].

A Membrana Celular Não é Uma "Parede Morta"

Por muito tempo, a medicina imaginou as membranas das nossas células como meras paredes inertes, pacíficas barreiras aquosas cuja única função era manter o citoplasma fechado [1]. Esta visão redutora caiu por terra com as descobertas do bioquímico americano William E. M. Lands [1].

Lands provou que a parede celular (a bicamada fosfolipídica) é um ambiente dinâmico, vivo e em contínua reestruturação [1, 2]. O chamado "Ciclo de Lands" é o processo exato pelo qual as nossas células alteram ativamente a sua própria constituição física de acordo com aquilo que ingerimos [1].

Neste ciclo ininterrupto de reparação, um formidável grupo de enzimas – chamadas Fosfolipases A2 (PLA2) – atua como um pedreiro cirúrgico, removendo ácidos graxos gastos ou oxidados da membrana [1]. Imediatamente a seguir, outras enzimas (as aciltransferases, nomeadamente a LPCAT3) enxertam novos ácidos graxos provenientes da nossa última refeição para reparar a parede celular [1, 2].

É aqui que o desastre metabólico moderno começa.

LPCAT3: O "Cavalo de Troia" do Ácido Linoleico

A enzima LPCAT3, expressa em enormes volumes no nosso fígado, nos músculos e no tecido adiposo, tem uma atração fatal por um ácido graxo específico: o Ácido Linoleico (Ômega-6) [1, 2].

No período Paleolítico, os nossos genes evoluíram para lidar com proporções minúsculas deste Ômega-6, proveniente apenas de um punhado de sementes ou caça, mantendo um equilíbrio apertado de 1:1 a 4:1 em relação aos Ômega-3 marinhos [1]. Contudo, a industrialização introduziu um dilúvio exógeno de óleos extraídos quimicamente. Hoje, o consumo da espécie humana desta molécula específica (o Ômega-6) disparou em 158%, resultando em uma proporção tóxica de mais de 20:1 no corpo humano [1].